Um levantamento baseado nos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) mostra que o desempenho dos estudantes brasileiros muda significativamente quando as notas são analisadas levando em consideração a realidade socioeconômica de cada estado.
Em matemática, 20 estados e o Distrito Federal ficaram abaixo do desempenho esperado para o perfil socioeconômico dos estudantes. O cenário chama atenção principalmente porque estados com indicadores econômicos mais baixos conseguiram, em alguns casos, superar as expectativas, enquanto unidades federativas mais ricas apresentaram resultados inferiores ao que seria esperado.
A análise foi realizada por pesquisadores do Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional), a pedido do g1, que adaptaram os resultados estaduais do Pisa nas áreas de matemática, leitura e ciências.
O estudo considerou características como escolaridade dos pais, situação profissional dos responsáveis e recursos disponíveis nas residências dos estudantes, incluindo livros, computadores e acesso à internet.
O que é o Pisa?
O Pisa é uma avaliação internacional organizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que mede conhecimentos e habilidades de estudantes de 15 anos em matemática, leitura e ciências.
Participam da avaliação estudantes de escolas públicas e particulares de diferentes países. Na edição mais recente, foram considerados 91 países.
O detalhamento dos resultados por estado brasileiro não era divulgado desde 2015, o que permite agora uma análise mais aprofundada das diferenças existentes entre as regiões brasileiras.
Segundo os pesquisadores, o objetivo não é apenas observar quem teve a maior nota, mas entender se o desempenho apresentado é compatível com as condições socioeconômicas dos estudantes.
Por que considerar o nível socioeconômico?
Comparar diretamente as notas de um estado com outra realidade econômica pode esconder diferenças importantes.
Um estudante que vive em uma família com maior escolaridade dos pais, acesso constante à internet, livros, computador e um espaço adequado para estudar possui condições diferentes de outro aluno que enfrenta limitações nesses aspectos.
Por isso, o levantamento criou uma referência socioeconômica para cada estado e comparou o resultado efetivamente obtido pelos estudantes com aquilo que seria esperado diante daquele contexto.
O indicador considera três grupos principais de informações:
✅ Escolaridade dos pais: considera o maior nível educacional alcançado pelo pai ou pela mãe.
✅ Status ocupacional da família: leva em conta a posição profissional mais elevada entre os responsáveis.
✅ Recursos e bens disponíveis em casa: considera itens e condições que podem favorecer os estudos, como livros, computador, espaço para estudar e acesso à internet.
A escala utilizada tem como referência os países da OCDE. O ponto zero representa o perfil socioeconômico médio desses países.
Paraná se destaca nas três áreas
O Paraná aparece como o principal destaque positivo da análise.
O estado já havia apresentado uma das melhores médias gerais do Brasil no Pisa e manteve o desempenho acima do esperado quando o contexto socioeconômico dos estudantes foi considerado.
O Paraná foi o único estado brasileiro a superar a expectativa nas três disciplinas avaliadas: matemática, leitura e ciências.
Em matemática, o estado ficou 15 pontos acima do resultado esperado para seu perfil socioeconômico.
Em leitura, a diferença chegou a 59 pontos acima do esperado, o maior resultado positivo entre os estados analisados.
Já em ciências, o Paraná ficou 39,8 pontos acima da expectativa.
Ceará e Piauí surpreendem positivamente
O levantamento também chama atenção para o desempenho de estados nordestinos.
O Ceará, por exemplo, alcançou 363,3 pontos em matemática. Quando analisada isoladamente, a nota pode parecer baixa. Porém, considerando o contexto socioeconômico dos estudantes, o estado ficou 10,5 pontos acima do resultado esperado.
Ceará e Piauí também aparecem entre os estados que conseguem superar as expectativas em diferentes indicadores.
O resultado mostra que uma nota absoluta mais baixa não necessariamente significa que determinado estado esteja apresentando um desempenho inferior ao que seria esperado diante de sua realidade.
Estados mais ricos também aparecem abaixo da expectativa
O levantamento apresenta um contraponto importante: estados com melhores condições econômicas não necessariamente apresentam os melhores resultados quando o desempenho é ajustado pelo contexto socioeconômico.
Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul, por exemplo, apresentaram resultados abaixo do esperado em algumas áreas.
No caso do Rio de Janeiro, a diferença chama atenção porque o estado possui um dos maiores PIBs do país.
A especialista em Educação Claudia Costin afirmou que o desempenho do estado contrasta com o de unidades federativas que avançaram em políticas como a ampliação da educação em tempo integral.
A Secretaria de Educação do Rio de Janeiro foi procurada para comentar os resultados, mas, segundo a reportagem de origem, não havia respondido até a atualização publicada.
São Paulo mantém notas altas, mas perde posição no ranking ajustado
São Paulo apresenta números elevados quando são observadas apenas as médias do Pisa.
O estado registrou:
✅ 403,8 pontos em matemática;
✅ 433,7 pontos em leitura;
✅ 442,6 pontos em ciências.
Esses números colocam São Paulo entre os destaques quando o ranking considera somente as notas.
Porém, quando o nível socioeconômico dos estudantes é levado em conta, o cenário muda.
Em matemática, São Paulo ficou apenas 2,3 pontos acima do resultado esperado. Foi a menor diferença positiva entre os cinco estados que superaram a expectativa na disciplina.
Na prática, isso significa que o desempenho paulista ficou muito próximo daquele projetado para estudantes com seu perfil socioeconômico.
Matemática concentra os maiores desafios
Entre as três áreas avaliadas, matemática apresentou o maior número de estados abaixo da expectativa.
Ao todo, 21 unidades da federação — considerando os 20 estados e o Distrito Federal — ficaram abaixo do resultado esperado para seu contexto socioeconômico.
O Paraná teve o maior resultado positivo, com 15 pontos acima da expectativa.
Ceará, Minas Gerais e Piauí também ficaram acima do esperado.
Na outra ponta, Roraima apresentou a maior diferença negativa do país: 50,2 pontos abaixo do resultado esperado.
Os estados da Região Norte aparecem entre os resultados relativos mais baixos. Roraima, Tocantins, Amapá e Amazonas estão entre as maiores diferenças negativas.
A especialista em Educação Katia Smole explica que as dificuldades em matemática podem começar muito antes da adolescência.
Segundo ela, a disciplina possui uma característica progressiva e cumulativa. Quando o estudante não desenvolve determinados conceitos básicos, como frações e proporções, pode encontrar dificuldades posteriormente em conteúdos como álgebra e outros conceitos mais complexos.
Leitura apresenta cenário diferente
Na leitura, o panorama é mais positivo.
A maioria dos estados brasileiros superou a expectativa considerando seu contexto socioeconômico: 24 das 27 unidades federativas ficaram acima do resultado projetado.
O Paraná novamente lidera, com 59 pontos acima do esperado.
Minas Gerais aparece logo depois, com 52,9 pontos acima da expectativa, enquanto o Ceará teve resultado 49,7 pontos superior ao projetado.
Somente três estados ficaram abaixo do esperado: Roraima, Tocantins e Mato Grosso.
Mato Grosso apresentou a menor diferença negativa entre todos os resultados analisados, com apenas 1 ponto abaixo da expectativa.
Para Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, o desenvolvimento da leitura precisa estar presente durante toda a educação básica.
A capacidade de interpretar textos também influencia outras áreas do conhecimento, já que estudantes precisam compreender enunciados de matemática, interpretar experimentos científicos e analisar gráficos e informações.
Ciências também mostra diferenças importantes
Em ciências, o Paraná novamente aparece na liderança relativa.
O estado ficou 39,8 pontos acima do esperado para seu nível socioeconômico.
Minas Gerais teve resultado 29,6 pontos superior ao projetado, enquanto São Paulo ficou 27,3 pontos acima da expectativa.
Roraima novamente apresentou o pior desempenho relativo, com resultado 40,4 pontos abaixo do esperado.
O Distrito Federal, apesar de apresentar uma nota elevada em termos absolutos, ficou ligeiramente abaixo da expectativa, com diferença de 0,5 ponto.
O Rio de Janeiro também ficou abaixo do esperado em duas das três disciplinas avaliadas.
Mais uma vez, estados da Região Norte — especialmente Roraima, Tocantins, Amapá e Amazonas — aparecem entre os resultados relativos mais baixos.
O que os resultados dizem sobre desigualdade?
Os números mostram que o desempenho educacional não pode ser analisado somente pela nota final.
Quando um estado apresenta resultado superior ao projetado para seu contexto, isso pode indicar que as condições existentes estão sendo transformadas em aprendizagem de maneira mais eficiente.
Já um desempenho abaixo da expectativa pode indicar dificuldades para transformar os recursos e condições disponíveis em resultados educacionais.
A análise, portanto, não significa que o nível socioeconômico determine o desempenho de um estudante. Ele é utilizado como uma variável de contexto para permitir uma comparação mais equilibrada entre realidades diferentes.
É possível comparar os resultados de uma década?
Os dados também permitem observar diferenças entre as edições de 2015 e 2025. Entretanto, os pesquisadores alertam que é necessário ter cautela antes de afirmar que houve avanço ou retrocesso em determinado estado.
Isso ocorre porque as amostras estaduais do Pisa são relativamente pequenas e apresentam margens de erro.
Segundo Ernesto Martins, diretor-fundador do Iede e doutor em Educação pela Universidade de Coimbra, quando os erros-padrão apresentados nas planilhas oficiais são considerados, os intervalos de confiança dos resultados de 2015 e 2025 se sobrepõem em grande parte das comparações.
Isso significa que algumas diferenças que parecem grandes à primeira vista não podem ser interpretadas automaticamente como uma evolução estatisticamente comprovada.
Paraná ultrapassa uma marca importante
Mesmo diante dessa cautela estatística, alguns resultados chamam atenção.
O Paraná alcançou 462 pontos em ciências e 458 em leitura. Mesmo considerando o intervalo de confiança, o estado consegue ultrapassar a faixa dos 450 pontos, algo que, segundo a análise apresentada, ocorre pela primeira vez com um estado brasileiro.
São Paulo também apresenta evolução comprovável no período analisado em ciências.
Já em matemática e leitura, os resultados de 2015 e 2025 apresentam intervalos que se sobrepõem. Por isso, não é possível afirmar estatisticamente, apenas com esses dados, se houve melhora, estabilidade ou piora nessas disciplinas.
Comparar redes pública e privada exige ainda mais cuidado
Os pesquisadores também fazem um alerta sobre comparações entre escolas públicas e particulares dentro de cada estado.
Quando o número de escolas particulares selecionadas para participar do Pisa é pequeno, os erros-padrão podem ser muito elevados.
Por isso, a elaboração de rankings entre redes de ensino pode produzir interpretações equivocadas quando não são consideradas as margens de erro.
O que o levantamento revela?
Os resultados mostram que o desempenho educacional brasileiro apresenta diferenças importantes entre os estados e que essas diferenças ficam mais claras quando o contexto social dos estudantes é considerado.
O Paraná se destaca por superar as expectativas nas três áreas avaliadas. Ceará, Minas Gerais e Piauí também aparecem em posições de destaque relativo, especialmente considerando seus indicadores socioeconômicos.
Por outro lado, Roraima apresenta os resultados relativos mais baixos nas três disciplinas, enquanto outros estados da Região Norte também aparecem repetidamente entre as maiores diferenças negativas.
A matemática surge como o principal ponto de atenção, com 21 unidades federativas abaixo da expectativa. A leitura apresenta o cenário mais positivo, com 24 dos 27 estados e o Distrito Federal acima do resultado projetado para seus respectivos contextos.
Os dados reforçam, portanto, que olhar apenas para a nota final pode não ser suficiente para compreender a realidade educacional de cada estado. As condições em que os estudantes vivem, estudam e desenvolvem sua aprendizagem também precisam fazer parte da análise.
Fonte: G1 Globo

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